O Céu do Mar

Excerto

“Mãe, quero ir para o mar…», dizia ele de pele morena e jeito vivaço. «O mar ainda não cabe nos olhos de Deus, por isso deixa-te estar… envelhece». O catraio baixa os olhos com tristeza, mas ainda pergunta: «Com que idade o pai foi para o mar?». Carminda mostra-se inquieta e irritada. Não me lembra. «Mas sei a idade que tinha quando o mar foi para dentro dele e não o deixou regressar… não me peças para partir se não podes assegurar que voltas.» Pedro sentia-se imortal como todos os jovens, por isso garantia à mãe que voltaria, que voltaria sempre. Mas as viúvas são duras de ouvido, não ouvem o que lhes lembra a morte - por isso fez orelhas moucas às súplicas do filho. «O mar é traiçoeiro, não o quero dentro de ti». Pedro ainda argumenta como pode, mas ela não o ouve. As suas palavras eram como o rumorejar das ondas - vêm e vão, depois perdem-se na maré baixa. «Lembra-te, do mar não vem só peixe. Também chegam tábuas e mortos», diz ela, enquanto mexe a sopa de cação que está ao lume. «Do mar não vem só peixe, do mar não vem só peixe…» repete a mulher que tem uma cadeira vazia ao seu lado…”

(…) O ti’Antão era agora mestre em terra - todos lhe obedeciam, só as crianças ficavam chorosas no alto do morro, observando ao longe, encostadas umas às outras como os bandos de gaivotas. Naquele dia, na praia do Pescado, era mestre dos homens velhos e das mulheres chorosas – era essa a tripulação que tinha na areia para receber os barcos que chegavam à costa já meio-desfeitos e com mortes para contar. O mestre Antão fazia orelhas moucas. Não queria ouvir os relatos gélidos, os gritos ensanguentados… Não se queria ocupar com o coração quando precisava da cabeça, pois a toda a hora chegavam barcos – muitos da Póvoa, mas outros eram de Matosinhos, outros de Ovar, outros sabe Deus d’onde… não importava. «Ala arriba» - era preciso puxar o barco para o areal. Os mortos vinham perdidos nos fundilhos das lanchas ou eram cuspidos para a praia pelas línguas de mar. As mulheres gritavam espavoridas a cada corpo desengonçado que encontravam. Quando eram conhecidos ou familiares, atiravam fora o coração num grito e agarravam-se a eles, sacudiam-lhe o corpo para ver se havia ainda uma réstia de vida a telintar por dentro. Mas o «danado» tinha tomado conta deles…”