A CNB e os Poetas

 

Género

Poesia

Editora

Companhia Nacional de Bailado

Lançamento

2014

Bailarino, o Pássaro do Chão

Em 2014, a CNB convidou poetas portugueses para assistirem a espectaculos da companhia para se inspirarem a escrever sobre dança. Dos trabalhos enviados, a Companhia Nacional de Bailado editou a publicação "A CNB e os Poetas" que reúniu palavras dos seguintes escritores:

Fernando Pinto Amaral, Filipa Leal, Graça Pires, Inês Fonseca Santos, Isabel Mendes Ferreira, Jaime Rocha, José Mário Silva, Margarida Ferra, Nuno Júdice, Valter Hugo Mãe e Vasco Gato e João Morgado.


Bailarino, o Pássaro do Chão

O Bailarino é um pássaro do chão,
como outros são do céu.
São a inveja das árvores que não voam
a inveja das pedras com musgo
dos pesados Homens que não dançam.

Quem te ensinou a voar?
Foi a magia do vento?
Foi o vento que te ensinou a ser folha bailadeira
em vez de árvore?
A ser poeira malabarista em vez de pedra?
A ser artista e a altear os pés sem estar preso?
A recolher as raízes, a vomitar o peso?

O Bailarino é um pássaro do chão,
como outros são do céu.
O seu corpo é uma recta onde cabem
todas as curvas de um véu.
Feito de ar, nervos d’aço, é fio-de-prumo aberto em compasso.

Quem te ensinou a voar?
Foi o milagre dos deuses?
Foram os deuses que te ensinaram
a intensidade e a leveza?
O brilho dos reflexos, a elegância da espuma?
O enlaçar da poesia e das emoções uma a uma,
uma a uma?

O Bailarino é um pássaro do chão,
como outros são do céu.
Quem te ensinou a voar?

- Aprendi na dor…!

Sim, o Bailarino é um pássaro
as suas asas são da dimensão da dor
um pássaro moldado em rasgado movimento
que se repete, se repete, se repete…
quantas vezes? - setenta vezes sete
até que reste um corpo alquebrado
maltratado, castigado, torturado
e se abra um sulco de arado na alma…

- Sem direito ao céu, o Bailarino é um pássaro bastardo,
que sem magias nem milagres aprende
a voar em contraluz,
deixando o sangue no estrado
onde apenas o suor reluz!

- Ahhh… mas quando dança…
quando dança é pássaro por inteiro
esquece a mágoa e o sofrimento
desliza como água, é música em movimento
ganha asas, ganha vento, ganha os ares a sonhar
abre em arco os seus braços, risca lume no ar
e em pose de conquistador, rei d’aquém e d’além dor
vai onde o c,undo
senhor do mundo
num subtil passo de dança!

TagsBailarino Pássaro Poetas Companhia Nacional de Bailado

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